segunda-feira, 1 de novembro de 2010


Uma relação forte que se pode estabelecer na ponte entre palco e plateia é aquela que toca o espectador em algo que está fora do palco, algo que pode não ter sido planejado, dirigido, apresentado ou conferido como espetáculo. Faço um exemplo a partir do comentário do espetáculo Tragédionation, do grupo Abreu a Cena (de BH), apresentada na tarde de ontem (26) durante o Feto.

Quem não diria que a fila de mãe e parentes sentados na frente do palco do Espaço Esquyna também não fazia parte do espetáculo? Ou o grito dos jovens, lá da coxia, minutos antes de liberarem a entrada do público? Um pouco dessa energia e atmosfera já é um jogo que se estabelece com espectadores, que os prepara para a cena que se vê em seguida.

Assim também acontece quando o teatro começa de fato. Esse algo fora do palco, durante o contato com o palco, tem um valor por vezes ignorado. Não conheço o grupo Abreu a Cena, não conheço o processo de criação do Tragédionation!, mas existe nos subtextos daquelas cenas, da energia daqueles jovens, no nosso preparo, algo que parece suficiente para que haja uma boa convivência. E que agrada.

Algumas questões

Não digo, com isso, que o processo se explica integralmente pelo espetáculo. E por falar nisso, tenho uma grande curiosidade para saber como foi o processo de Tragédionation. E mais, tenho curiosidade de saber como funciona em BH os processos de articulação, discussão e conversas sobre arte-educação na cidade. Alguns bate-papos nos corredores do Feto convergiram na ideia de que a arte, por si só, não é tão libertária como todos julgam. É uma grande questão a ser colocada a quem lida com arte para jovens e crianças: como o teatro e arte podem ser usados com os propósitos libertários, políticos e sociais que ela parece associar-se? É uma questão obscura e delicada que me faz deparar com a imaturidade que tenho para ensinar teatro para crianças.

Como se aproveitar das experiências registradas por Augusto Boal, em suas técnicas do Teatro do Oprimido, a fim de fazer valer sua visão da relação entre o teatro e a sociedade? Como tirar das tragédias de Eloá, Sandro e Nardoni, uma meditação que corre por fora das espetacularizações feitas pela mídia brasileira? Como trabalhar o discurso moralista, e o maniqueísmo, que passeiam não só pela mídia, mas também pelo teatro infantil de má qualidade? Em um festival estudantil, são questões boas pra refletir, não?

Texto extraído do site do Festival: http://www.fetobh.art.br/?p=1227

Nenhum comentário:

Postar um comentário